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  • Maria do Mar Vieira

Adolescência



Fui crescendo, sempre a esconder tudo aquilo que na verdade sentia. Sabia que era diferente. No ciclo preparatório as conversas dos meus colegas eram chinês para mim, não compreendia o que eles diziam. Falavam sobre rapazes, moda, cantores, tudo coisas que não me interessavam minimamente. E mesmo que quisesse dizer alguma coisa, não sabia quando o devia dizer. No meio de tantas vozes, como saberia quando era a minha vez de falar? Intrigava-me o facto de eles saberem isso e de interagirem tão bem entre si. Onde teriam aprendido? Dizia na minha cabeça, inúmeras vezes, a frase que queria dizer, ganhando coragem para a dizer e quando achava que ia ser capaz, o tema da conversa já tinha mudado e acabava por nunca dizer nada. Sempre fui muito boa aluna. As regras eram algo muito importante para mim e os meus colegas estavam constantemente a quebrá-las e isso perturbava-me bastante. Muitos deles não faziam os TPC, falavam nas aulas, chegavam atrasados e diziam muitas asneiras. Eu costumava estar sempre a dizer ‘Não se dizem asneiras’, mas isso só os irritava. Não percebia como é que eles eram capazes de quebrar as regras e ainda quase me obrigavam a também dizer asneiras, mas nunca disse nenhuma. Chegar atrasado para mim é assustador. Sei que se algum dia chegar atrasada a qualquer lado, não entro na sala. Além de ser incorreto, já viram o quão mau é toda a gente se virar e ficar a olhar–vos fixamente? Aterrorizador!

Costumava dizer que vinha de outro planeta, na verdade era assim que me sentia. Era como se as pessoas falassem outra língua, ouvissem de outra maneira e sentissem as coisas de forma diferente. Vivo a vida de maneira bastante intensa. Sinto tudo de forma muito intensa, como se, a cada momento, não houvesse mais nada. Sentia que ninguém me compreendia, que era invisível e inútil. Ainda brincava com bonecas, acreditava em fadas e Pai Natal e era alvo de gozo na escola. Eu falava dessas coisas com tanta naturalidade e normalidade! Julgava que todos também acreditavam. Ir à escola começou a ser um tormento para mim. Não aguentava mais o barulho, o incumprimento de regras, a desarrumação das mesas. Sentia-me perdida no meio daqueles corredores enormes cheios de pessoas.

Era ignorada pela maior parte dos meus colegas e ouvia diariamente coisas que me magoavam. Ouvia nomes muito feios e frases que me punham a chorar. Tentava disfarçar ao máximo, mostrando que aquilo não me afetava. Quando chegava a casa, ia para o meu quarto, abraçava os meus peluches e a minha gatinha, os meus poucos e verdadeiros amigos e ficava ali a falar com eles. Ali podia entrar no meu mundo, estar sossegada e falar com quem eu quisesse. Tinha uma vida paralela que vivia na minha cabeça onde me sentia igual a toda a gente. Mas não podia viver ali para sempre. Tranquilizava-me ter uma rotina. Acordar sempre à mesma hora, 7h36 e sair de casa para as aulas sempre às 8h17. Se saísse um minuto mais tarde, já estava muito atrasada e entrava em pânico. Se faltassem dois minutos, sentava-me à espera, e só a hora certa saía de casa.

Foi um período bastante complicado para mim que teve como consequência o deixar de ir às aulas. Sentia-me uma desilusão para todos. Só queria desaparecer. Ficava os dias em casa a chorar no meu quarto. Estava farta de não poder ser eu própria, estava cansada de ser uma pessoa que não era. O tempo tinha-me obrigado a agir de uma maneira que não compreendia e a pensar de uma forma muito confusa e estranha. Eu só queria voltar a ser feliz, a fazer as coisas que fazia em criança sem ser humilhada. Queria voltar a puder estar no meu mundo, sempre, todos os dias a toda a hora. A pensar e a sentir como só eu o fazia. As crises de ansiedade aumentaram a passos largos. Eu só queria voltar para o meu mundo, queria deixar de ser a extraterrestre que sentia que era. Comecei a agir mais agressivamente, como se fosse invadida por uma outra pessoa que fazia coisas que eu não queria. Eu só queria ser eu. Porque não me deixavam ser eu? E quando o era porque ninguém me compreendia? Sentia-me perdida, no meio de estranhos, no meio de um mundo confuso.

Sei que há muitos jovens que se sentem como eu me sentia. A mensagem que vos deixo é: Vocês não estão sozinhos, por muito que pareça. Por muito que pareça que não são compreendidos e que não podem ser vocês próprios, existem muitos mais jovens como vocês. Peçam ajuda às pessoas mais próximas e que vos amam. Vão encontrar soluções. Mas peço-vos para nunca desistirem. Sejam sempre vocês próprios e acreditem em vocês e nos vossos sonhos.

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