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  • Maria do Mar Vieira

Dia da Mãe




Mãe, que lutas diariamente para que todo o meu sofrimento acabe, que vives com o medo que me aconteça algo, que tenha um Meltdown e que ninguém esteja lá para me ajudar. Tentas-me compreender, mesmo que seja difícil perceber o que vai na minha cabeça, o motivo dos meus gritos, choros e comportamentos mais agressivos. Sei que ficas chateada, choras, talvez não durmas de noite, mas no dia seguinte estás com um sorriso no rosto e abraças-me. Sei que tens medo que o passado volte e que o sofrimento me invada para nunca mais sair. Também tenho medo disso, mas luto todos os dias para isso não acontecer. Luto diariamente por mim, pela minha felicidade e pela minha vida. Antes não sabia o que se passava, apenas sabia que era diferente. Hoje sei quem sou. Há uns anos, quando estávamos a tentar perceber tudo o que se passava, disse entre lágrimas e gritos que estava farta de fingir ser uma pessoa que não era. Não percebeste o que quis dizer. Na verdade nem eu percebi, fiquei admirada por me terem saído estas palavras da boca. Lembro-me que passado uns tempos me abraçaste a chorar e disseste que agora percebias o porquê de eu ter dito aquilo e que não deste a atenção devida a aquelas palavras. Hoje sabemos que me referia ao mascaramento. Mascaramento esse que eu nem sabia que fazia. Tem sido um percurso de muito auto-conhecimento, que partilho contigo. As nossas conversas são muito importantes para mim, onde falo de coisas que não me sinto à vontade para falar com qualquer pessoa, coisas minhas, comportamentos que eu faço, tentamos perceber o motivo de certas coisas e hoje tudo faz sentido.

Quero que sejas feliz e te orgulhes de tudo aquilo que estou a conseguir fazer e da pessoa em que me estou a tornar. Além de mãe, és a minha melhor amiga, com quem me divirto sempre e nos rimos de coisas que só nós sabemos. Não te quero desiludir nunca. Não te preocupes que tudo vai ficar bem, o passado não vai voltar e eu vou-me certificar disso. A felicidade já veio e vai ficar para sempre nas nossas vidas.

Ser autista é lutar diariamente por nós, pela nossa aceitação e compreensão. Mas ser mãe de Autista é estar sempre atrás de nós para nos amparar sempre que caímos, é motivar-nos diariamente, é ajudar-nos a perceber porque estamos ansiosos e ajudar a arranjar estratégias para ultrapassar os obstáculos, é puxar-nos para a frente mas também saber quando precisamos do nosso espaço, é lutar também por nós, pela nossa aceitação e pelo fim do nosso sofrimento. O Dia da Mãe não é apenas hoje mas todos os dias. Ninguém valoriza o trabalho e esforço de uma mãe e de um pai de um autista. Lutam incansavelmente para nos ver bem e é aí que vemos que o amor move montanhas!


Obrigada Mãe, ser autista pode não ser fácil, mas contigo ao meu lado é muito mais fácil!

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