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  • Maria do Mar Vieira

Meltdown e o uso da contenção - A minha experiência

Estava num jardim. Um segurança abordou as pessoas que estavam comigo e disse-lhes que não podiam fotografar. Fiquei confusa e sem perceber porquê. Já tinha ali fotografado antes, não tinha havido nenhum problema. A maneira como ele falou deixou-me ainda mais desconfortável. Afastei-me um pouco e sentei-me numas escadas para me tentar acalmar. Senti-me perdida, sem saber o que estava a acontecer, a voz do segurança entrou profundamente dentro da minha cabeça. Ouvia algumas frases que ele tinha dito em loop. Os sons do jardim foram aumentando. Era tudo tão alto e tão intenso que deixei de perceber que sons eram aqueles. As minhas unhas cravavam-se na pele do meu braço. Continuava sem perceber porque as pessoas falavam daquela maneira, porque não podiam ser simpáticas? O que estava de errado? Algo dentro de mim percorreu todo o meu corpo. Um fogo cada vez mais quente que me queimava, que me fazia doer o corpo todo. As lágrimas começaram a escorrer pela minha cara. Queria que aquilo passasse. Queria sair dali. Queria perceber o que estava a acontecer. Queria que alguém me ajudasse. Mas uma ‘explosão’ dentro da minha cabeça aconteceu. Perdi o controlo sobre mim. Comecei a correr. Fui em direcção ao segurança e quando dei conta empurrei-o. As minhas mãos agiam sem eu as ordenar. Queria parar, mandava-as parar mas elas continuavam. Davam murros, empurrões. Batiam na minha cabeça, no segurança e em tudo o que estivesse à minha volta. Da minha boca saiam gritos. Deixei de ter consciência do que estava a acontecer. Era como se outra pessoa estivesse dentro de mim e estivesse a utilizar o meu corpo para fazer aquilo. Tinha medo. Só queria que aquilo parasse. Só queria perceber o que estava a acontecer. Mas a explosão dentro da minha cabeça só crescia. Veio outra segurança e culpou-me de coisas que eu não tinha feito. Apenas pelo facto de estar a ter um meltdown, achou que eu era a culpada de coisas que lhe tinham feito a ela, de lhe terem atirado ‘bombinhas’ (nem sei o que isso seria), apenas por diversão, algo intencional. O fogo dentro de mim aumentou, senti-me revoltada por estar a ser acusada de coisas que não tinha feito. Eu só queria ajuda, queria que me dissessem que estava tudo bem. Mas só me agarravam com força. Esse toque era tão desconfortável. Queimava-me a pele. Via à minha volta pessoas a olhar para mim, a filmar-me. Como se eu fosse uma atracção de um circo. Só queria que tudo parasse. Comecei a ficar cansada. Ao ver aquilo à minha volta, aquelas pessoas todas fiquei ainda mais perdida. Queria sair dali mas continuavam a agarrar-me. Sentia-me tão perdida, tão incompreendida, tão dorida, com tanto medo do que se passava que quis morrer naquele momento. Talvez assim tudo desaparecesse. Mas já tinham chamado a polícia e o inem. Agarraram-me. Tive medo. Tentei fugir mas atiraram-me para o chão, sentaram-se em cima de mim, agarraram com força os meus pulsos. Gritava. Mal conseguia respirar. Mas ninguém veio em meu auxílio. Continuavam a olhar para mim como se fosse uma criminosa. Sei que tinha uma pulseira muito importante para mim num dos pulsos, ficou partida aos bocados. Fiquei com marcas e com dores nos pulsos durante uns tempos. Algemaram-me. Naquele momento senti-me humilhada. Cansada. Só queria ir para casa e deitar-me. Levaram-me para o hospital, amarraram-me a uma maca e deram-me uma injecção que me pôs a dormir o resto do dia. Percebi que não podia ser Autista. Que não podia mostrar que era Autista. Que não podia vacilar. A partir daquele dia tive medo, ainda hoje tenho. Sempre que tenho um Meltdown vêm-me à memória esta dor e esta humilhação e tenho medo que se repita. Tenho medo de ter um Meltdown, de não me conseguir controlar. Tenho medo de ser Autista. Tenho medo de ser eu. Tenho medo da policia e do inem. Era suposto me sentir segura mas só tenho medo. Todos os dias tenho medo de sair à rua e enfrentar o mundo.


Penso que as autoridades devias ter conhecimento, formação e saber agir nestes casos. Eu não sou uma criminosa, não sou maluca. Sou apenas Autista. Estou apenas a ter um Meltdown. E preciso da tua ajuda.




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