TESTEMUNHOS

Micaela Rocha

''Trabalho com jovens com autismo há dois anos. Mas conheci o autismo quando tinha apenas 7 anos. Percebi que o meu primo via o mundo de forma diferente e foi então que me disseram que ele tinha autismo. Perturbação do Espetro do Autismo... Para uma criança com apenas 7 anos, uma palavra tão complexa, sem sentido.. Contudo, eu sabia que ele era fascinante e que eu tinha de o conhecer. Construímos uma amizade, como todas as outras, baseadas no amor. Percebi que o facto de ele me olhar nos olhos por breves segundos, significava muito. Significava que ele me via, que sabia que eu estava a seu lado e acima de tudo que gostava muito de mim. Que a rotina era muito importante, pois fazia com que se sentisse seguro. Que as estereotipias o mantinham calmo, diminuindo o stress que sentia devido a todos os estímulos à sua volta (cores, sons, texturas, cheiros). Percebi que ele era meigo, inteligente e único. A verdade é que entrei neste mundo e não saí mais. Não quis sair de um mundo verdadeiro, genuíno e bondoso. Depois de tantos anos, estou a trabalhar no que sempre sonhei. Sou assistente social numa associação de jovens com autismo. A Maria do Mar pediu-me para escrever sobre este mundo e eu aceitei. Aprendi que devemos sempre olhar para os jovens com autismo como pessoas! Eles não se resumem ao seu diagnóstico, isso é apenas um rótulo, são, sem dúvida, muito mais. Ensinam-nos a comunicar de forma diferente, a desconstruir preconceitos, a derrubar barreiras e o verdadeiro significado do amor, no seu estado mais puro e genuíno. O mundo é tão mais bonito aos olhos deles e eu só tenho que agradecer tudo aquilo que me dão.''

                                                                                                                                   Micaela Rocha

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