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  • Maria do Mar Vieira

A Descoberta


Photo: Zé Manel

Quando decidi deixar de estudar, estava no secundário. Levaram-me a um psicólogo. O primeiro diagnóstico foi de fobia social , mas logo mudou para Síndrome de Asperger, uma variante do espectro do autismo. Tinha 16 anos. Já tinha lido sobre todo o tipo de doenças mentais, procurando com qual me identificava mais. Não foi surpresa nenhuma quando me disseram que tinha Asperger, já estava a espera de alguma coisa, eu só queria saber o que tinha, estava desesperada, não me assustava nenhum diagnóstico. Mas, para minha surpresa, fiquei petrificada quando soube. Por um lado fiquei aliviada, finalmente sabia o que tinha, mas por outro lado fiquei aterrorizada. Como iria ser a minha vida dali para a frente? Iria conseguir ter uma vida normal? Fiquei com medo. Tinha tido um colega com Síndrome de Asperger, via a maneira como os meus colegas olhavam para ele, como falavam dele e o tratavam. Iam agora começar a tratar-me como o tratavam a ele? Decidi que nunca ninguém iria saber o que eu tinha. Tinha vergonha de ser assim, de ter Autismo. Não queria ser tratada de forma diferente, não queria ser tratada como uma coitadinha, como uma deficiente. Eu bem via como a maioria das pessoas falava dos Autistas e a maneira como gozavam com eles. Eu não queria isso para mim. Eu não queria ser Autista. Mas, por outro lado queria ser aceite tal como era, queria ser Eu própria sem medos e sem ter de fingir ser uma pessoa que não era. Mas para isso tinha de me aceitar primeiro e eu não aceitava. Queria estar no meu Mundo mas não queria ser Autista. Só queria ser uma pessoa normal. Entrei numa profunda depressão. Achava que nunca iria ser ninguém na vida, nunca iria conseguir ter uma vida normal. Via os meus antigos colegas já na universidade, a seguir o seu caminho e a sua vida. E eu ali. Deitada a chorar no meu quarto. Não era capaz de nada. Só queria morrer. Cheguei mesmo a estar internada devido às enormes crises de ansiedade. Cheguei mesmo a tomar compridos para por fim à minha vida.

Foram momentos muito difíceis. Sentia-me culpada por ser assim, sentia-me uma falhada que não conseguia fazer nada.

Não sei como, mas a minha avó conseguiu convencer-me a ir fazer os exames do secundário. Estudei sozinha em casa, criei um horário que cumpria todos os dias. Era tão relaxante, puder estudar sozinha, sem vozes à minha volta, sem confusões. Fui um grande sucesso. Fiz os exames todos com boas notas. Os dias dos exames foram um pouco assustadores, tive de enfrentar muitas pessoas, medos e ansiedades. Mas consegui.

Os dias difíceis continuaram por muitos anos. Os únicos momentos em que me sentia bem era quando ia para a dança. Aí sentia-me no meu mundo. Posso dizer que sem a dança seria tudo muito mais difícil. Quando estava nas aulas de dança, sentia-me igual aos outros. Partilhávamos o mesmo gosto. Comecei a ver a dança como algo sagrado para mim.

No ano passado, com 22 anos, comecei a estudar na APPDA. Posso dizer que foi a melhor coisa que me aconteceu. Nunca me senti tão bem e tão feliz em toda a minha vida. Conheço pessoas como eu, sinto-me integrada e igual a elas. Coisa que nunca senti na vida. Claro que ainda há dias difíceis mas isso todos nós temos, certo? Quero agradecer a esta grande Associação, pois sem ela nunca teria chegado onde cheguei. Nunca me teria aceite e, finalmente, gostado de mim. Nunca teria ganho a força e a coragem para fazer as coisas que faço agora. Pela primeira vez estou tranquila nas aulas e acho que se algum dia chegar atrasada, pensaria em entrar na aula. Não quer dizer que entrasse mas já punha essa hipótese. Tem sido um ano de muitas aprendizagens, não só em termos profissionais mas também em termos pessoais. Nunca pensei que alguma vez viesse a ter uma vida normal, estável e feliz, mas tenho! Hoje sou feliz. E tenho a ajuda de muitas pessoas que acreditam no meu potencial e me encorajam a seguir em frente.

Aos 16 anos, a minha vida mudou para sempre. Demorou até eu perceber que isso era uma coisa boa. Finalmente percebi porque vejo e sinto o mundo de maneira diferente. Hoje posso dizer que tenho Orgulho em ser Autista. Já não tenho vergonha disso. Gosto de ser assim e nunca mudaria nada em mim. Ser Autista dá-me muitas coisas boas para mim e para os outros. Posso dizer que ter Autismo me dá um Super Poder! E sinto-me uma felizarda por tê-lo.

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