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Crises, sofrimento e desespero

  • Foto do escritor: Maria do Mar Vieira
    Maria do Mar Vieira
  • 2 de fev.
  • 5 min de leitura

Eu tenho o Cartão Intermodal da MetroBus que inclui o metro e os autocarros, e tenho desconto por causa do atestado multiusos.

Tinha ouvido que dava para carregar nas próprias máquinas das paragens do metro. Na semana passada, dirigi-me a uma máquina da paragem do metro perto de minha casa para carregar o passe para o mês de Fevereiro. Apareceu-me para Renovar e fazer o pagamento. Paguei os 15€, e apareceu-me a dizer que tinha sido renovado com sucesso.

Hoje, quando fui validar o passe no metro, apareceu a dizer Titulo Expirado. A ansiedade cresceu. O passe não estava a dar. Não sabia o que fazer. Fiquei perdida. Mas pensei, “vou resolver o assunto, vou conseguir. Vou a uma loja dos SMTUC lá perto, onde fui da primeira vez carregar”. Ganhei coragem e fui. Cheguei lá e a senhora disse que lá não podia fazer nada. Para me deslocar à Loja da Portagem. A ansiedade cresceu ainda mais. Senti que uma possível crise poderia vir aí, mas disse, “não, tenho de resolver isto, já sou crescida, tenho de conseguir fazer isto sozinha”.

Quando lá cheguei, disseram-me que o carregamento para o passe Circula PT só podia ser feito nas lojas. Mas como tinha dado nas máquinas do metro, que tinha de se resolver a situação. Ligaram para a Central da Metrobus e disseram que em loja não podiam fazer nada e para ligar eu para eles, para resolverem a situação.

Eu senti o pânico a invadir-me. Como vou agora trabalhar? Já estou atrasada. Não tenho como ir agora. O que eu faço? A senhora começou-me a fazer perguntas ambíguas. “Para onde vais?” A minha cabeça estava perdida. Vou para onde? Para que estação de metro vou? Ela quer saber onde eu trabalho? Para que zona de Coimbra vou? O que a pergunta “Vais para onde?” quer dizer exatamente? Respondi que ia para a estação da Portagem. E ela ficou muito admirada e perguntou-me porque é que eu carreguei o passe. E eu disse “porque preciso de andar de metro até aqui, para ir trabalhar, e depois apanho o autocarro”. “Mas para que é que precisas de passe?” Eu não estava a perceber aquelas perguntas. Será que eu estava a ser burra e não estava a perceber algo simples? Eu sentia a crise a vir. Foram chegando pessoas e a loja já estava cheia. Um senhor tentava-me ajudar, mas eu não me conseguia concentrar e estava a ficar cada vez mais confusa e ansiosa. Este tempo também não ajuda. Costumo ter crises com a chuva, e o medo, de ter uma crise sempre que saio de casa com este tempo, está sempre presente. O imprevisto e mudanças de planos também são sempre coisas que me deixam sempre ansiosa e em crise. Já não iria conseguir ir trabalhar. A crise veio. Comecei a gritar e a bater na minha cabeça. Mas nada parava. O senhor tentou-me ajudar, mas agarrou-me no braço e aquilo doeu, ardeu na minha pele e gritei para não me tocarem. Ninguém fez nada, ficaram só a olhar. A crise não parava. Consegui parar por um segundo, peguei nas minhas coisas que tinham caído ao chão e saí para a rua.

O desespero veio. Não sabia como fazer aquilo parar. O sofrimento só aumentava, a confusão na minha cabeça subia. A dor era real. Só queria que alguém chegasse e me abraçasse com força. Mas tudo aumentava com força. Toda eu tremia. Chorava compulsivamente. E com a dor e o desespero que não têm fim à vista, só vejo uma solução. Desaparecer. Se morrer, tudo aquilo acaba. Liguei à minha mãe a dizer que me ia matar. Ela percebeu logo que eu estava em crise, e disse logo que me vinha buscar.

Enquanto esperava por ela, a crise escalava a grande velocidade. A dor, o sofrimento, o desespero, aumentavam a cada segundo. Só queria arrancar o coração do meu peito, deixar de o ouvir bater tão rápido e com tanta força. Queria arrancar o meu cérebro da minha cabeça. Batia na minha cabeça e tentava arrancar os cabelos para a dor, o peso, as agulhas me deixarem. Aí olhei em frente e vi a estrada. Era a única solução. Tudo acabaria. A minha cabeça pararia, o meu coração pararia, aquele sofrimento e desespero acabariam. Larguei tudo e fui. Corri em direção à estrada, certa que aquela era a única alternativa e que finalmente tudo ia parar. Pus-me à frente de um carro, ele parou, a senhora disse-me para eu sair da frente. Eu em lágrimas dizia para ela me passar por cima. Neste momento estava a passar um carro da polícia. Parou e tirou-me da estrada. Diziam-me para me acalmar, que estavam pessoas a ver. Eu não queria saber das outras pessoas, só queria que a minha cabeça parasse. Chamaram o Inem. Chegou, mediram-me alguns valores. A minha mãe chegou e deixaram-nos ir para casa.

Em casa adormeci logo de cansaço.

 

Não escrevo isto para terem pena de mim ou me fazer de vítima. É apenas para saberem o que se passa na minha cabeça. Para saberem como é ser autista e como é viver diariamente com estas crises. O sofrimento é real. Podem achar exagerado e que não havia motivo para tal. Mas é um acumular de situações, estímulos, ansiedades. Gostava que soubessem que não fazemos por mal, para provocar ou desafiar ninguém. Fazemos isto porque naquele momento não há mais nada que possamos fazer. E quando estamos sozinhos ainda é pior. Ninguém nos vai ajudar. Ninguém nos vai dar um abraço. Ninguém nos vai tirar dali. Vão-nos olhar com surpresa, medo, julgamento. Só queria que todos soubessem como agir e como nos ajudar. Porque depois ganhamos o medo de andar sozinhos e ter uma crise. Queremos ser independentes e fazer as coisas sozinhos. Mas por vezes não dá. A sociedade não nos ajuda. Por vezes aparece alguém com empatia para ajudar. Mas a grande maioria não. E ganhamos medo, não nos sentimos seguros sozinhos e tornamo-nos mais dependentes dos outros. Nós queremos ser independentes, mas por vezes a sociedade não nos deixa. E ficamos num buraco negro que é difícil sair. É preciso muita força e coragem para dizer, “Eu consigo desta vez”, e se não conseguirmos, conseguiremos na próxima.

Escrever ajuda-me a ultrapassar toda esta situação. Sinto-me mais aliviada, sai um peso dos meus ombros. Choro. São lágrimas de frustração, deceção, alívio. Tudo a sair de dentro de mim. No final sinto-me tranquila e mais forte. Escrever ajuda-me a perceber como funciono, o que penso, o que sinto. E espero conseguir ajudar pelo menos uma pessoa a nos compreender um pouco melhor.

Para todos aqueles que passam pelo mesmo que eu. Vocês não sozinhos. Nós somos fortes. Muito mais fortes que possam imaginar. Somos corajosos, para no dia seguinte enfrentarmos o mundo de novo, mesmo sabendo que tudo se poderá voltar a repetir. O que vos peço é para não desistirem. Lutem sempre até ao fim. Nós somos pessoas de valor e vamos conseguir superar tudo. Estou aqui com vocês, sempre.

 
 
 

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