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Setembro Amarelo

Foto do escritor: Maria do Mar Vieira
Maria do Mar Vieira
há 7 dias
4 min de leitura
Foto de Pedro Soares
Foto de Pedro Soares

A Depressão é algo bastante comum nos Autistas e se não houver um suporte de apoio grande, pode haver consequências graves como o suicídio.

Eu sentia-me sozinha e perdida, sentia que não pertencia a este mundo. Sabia que era diferente e que era vista como tal. Tinha uma grande pressão para me comportar o mais normal possível, pois à mínima estereotipia, ansiedade e certas dificuldades, era logo olhada de lado. Na escola sofri de bullying por ser eu própria e aí percebi que talvez não pudesse ser assim a todo o momento. Isso causou-me ansiedade e desconforto porque tinha de estar sempre consciente daquilo que fazia e dizia para não fazer nada que não seja considerado normal. Sentia-me frustrada e triste. Aquilo que mais queria era ser compreendida, aceite e respeitada. Queria fazer as minhas estereotipias, queria pensar e sentir como só eu o sabia fazer. Diariamente tenho de enfrentar desafios, ansiedades e dificuldades. Muitas vezes a cada minuto. Há dias que me sentia cansada e sem forças para enfrentar o mundo. Sentia-me desmotivada e frustrada porque ninguém me queria entender. É difícil viver neste mundo. Por muito que tentasse explicar, ouvia sempre as mesmas palavras por parte das pessoas à minha volta. Por vezes queria desaparecer, ir para um lugar onde não me sentisse extraterrestre.

Pensamentos negativos começaram a invadir-me a cabeça. Podia estar todos os dias com um sorriso no rosto, mas por vezes passava as noites a chorar. Não tinha vontade nem forças para fazer nada pois a desmotivação é muito superior à coragem. Isto tudo me causava uma grande ansiedade por não estar a conseguir lidar com tudo o que se passava à minha volta e a tristeza e frustração intensificava-se, tornando-se num círculo vicioso.

Via os meus antigos colegas já na universidade, a seguir o seu caminho e a sua vida. E eu ali. Deitada a chorar no meu quarto. Não era capaz de fazer nada. Achava-me inútil e sem capacidades. Achava-me fraca e que nunca iria conseguir ser independente e ter a minha própria vida. Achava que nunca iria conseguir arranjar um trabalho nem estudar mais. Pensar em ir para a faculdade assustava-me. Arranjar um trabalho também me assustava. A incompreensão pela parte dos outros mantinha-se.

A insistência para eu me fazer à vida, para eu ir estudar, trabalhar, aumentava a cada dia que passava. Diziam que me aceitavam tal como eu era, ganhava coragem para deixar o mascaramento de lado e ser eu própria, mas sempre que isso acontecia, era logo recriminada.

O sofrimento era maior do que a esperança. Estava cansada da minha vida e de ser assim. Apenas queria por fim à minha vida. Sentia-me uma extraterrestre e queria voltar para o meu Mundo. Não conseguia dormir, os pensamentos corroíam-me a mente. Não queria viver nem mais um dia e a única razão que me fazia adormecer era pensar que poderia não voltar a acordar. Os cortes no meu corpo eram cada vez mais frequentes pois queria sentir algo que fosse mais forte daquilo que eu sentia realmente.

Escrevi uma carta de despedida. Vesti o meu vestido favorito. Pus numa mochila todos os comprimidos que tinha em casa, uma garrafa de água e os meus pertences mais valiosos. Saí de casa e fui para um sítio que eu gostava muito e que costumava ir com uma amiga. Tomei todos os comprimidos, fiz um desenho da vista que tinha, mandei mensagem aos meus pais e a todos os meus colegas da dança a dizer que gostava muito deles, e fiquei ali à espera que aos poucos eu desligasse e morresse.

O meu pai ligou-me a perguntar onde eu estava e veio ter comigo. Chamou logo a ambulância. Eu mal me mantinha em pé e estava a começar a ficar inconsciente. Duas amigas minhas ligaram-me nesse preciso momento, como se tivessem adivinhado o que se estava a passar. Até a ambulância chegar, ficaram o tempo todo ao telemóvel comigo para se certificarem que eu não adormecia. A ambulância chegou e fui para o hospital. Não me lembro de muito mais. Só de acordar com um tubo a entrar-me pelo nariz acima para me fazer uma lavagem ao estômago. E depois de a minha mãe me ir ver. E mais tarde, de uma colega minha da dança estar ao meu lado ao telemóvel, a falar com a minha professora e os meus restantes colegas e me passar o telemóvel para falarem comigo. Pela primeira vez percebi que afinal havia pessoas que se importavam e gostavam de mim. Só naquele momento me apercebi que realmente eles eram uma família para mim. E que a dança era realmente importante para mim e que havia algo pelo qual valia a pena viver.

O Suporte familiar e Profissional é muito importante para nos ajudar a lidar com o nosso Autismo, a arranjar estratégias para combater a ansiedade e todos estes pensamentos. Ninguém tem de passar por isto sozinho. Se te sentes assim, pede ajuda e nunca desistas de ti e do que queres para ti! Tu és importante, mereces viver e ser tal como és!



 
 
 

1 comentário


assuncaoataide7
há 7 dias

Tu és uma menina bonita com um interior fantástico e uma beleza exterior única!! Tens muito para dar a este mundo que sofre de um individualismo patológico, mas todos precisamos uns dos outros para podermos andar equilibrados. Reforça as amizades que tens e ensina-nos a compreender ainda melhor o teu mundo interior que tem muito para partilhar!!

Beijinhos

Assunção Ataíde

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