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  • Maria do Mar Vieira

Testemunho 2

Hoje deixo-vos aqui um pequeno texto que o meu pai escreveu quando lhe perguntei 'como é viver com uma pessoa autista?'.

O meu pai é a pessoa mais calma e com mais paciência para mim, principalmente quando estou nos meus momentos de crise. É das poucas pessoas que me consegue acalmar nesses momentos e agradeço-lhe por isso e por tudo mais. É sempre o primeiro a apoiar-me e incentivar-me a fazer o que mais gosto. É capaz de pôr de parte por uns tempos os seus projetos, que são das coisas mais importantes para ele, para me ajudar a criar e a desenvolver os meus próprios projetos. Ficamos horas, talvez dias a falar sobre novas ideias para os nossos projetos e a falar sobre temas que só a nós nos interessam.

O meu pai, tal como a minha mãe, é das pessoas de quem mais orgulho tenho. Em todas as atuações, espetáculos, sessões, está lá um bocadinho dele também, pois esse bocadinho está dentro de mim. Toda a garra, coragem, amor pela Arte e coragem para fazer o que mais amo só existe graças ao meu pai, pois é isso que ele me transmite diariamente.

Obrigada pai. Por todos estes ensinamentos, por todo o amor que tens pela Arte.




'Toda a nossa vida vivemos segundo padrões que nos são impostos. Os chamados padrões da normalidade. Normalidade é, no fundo, um (pre)conceito imposto pela sociedade, que pretende impôr democraticamente um certo padrão / estilo de vida. Todo aquele que se situe fora deste padrão ou estilo, é marginalizado. Na atualidade somos "cegos num mundo de cegos" (Saramago). Vemos com os padrões que a nossa própria mentalidade impõe. Ou seja. Não conseguimos ver verdadeiramente nada à frente do nariz, porque apenas vemos o próprio nariz.

Viver com alguém com "autismo" é ver esta realidade no dia a dia. Para o bem e para o mal, somos despertos para uma outra realidade. O autismo manifesta-se essencialmente nos comportamentos da pessoa. E, na grande parte das vezes, estes comportamentos estão fora daquilo que se considera "normal". E isto leva à exclusão. Mas basicamente, aquilo que percebemos é que, no fundo, os excluídos somos nós, pois vivemos tão centrados nos nossos mesquinhos mundinhos que nem nos apercebemos que a vida é mudança, e que as normas são anti-mudança. São anti-generativas. Criamos normas para gerir as nossas vidas, para vivermos em sociedade, mas acabamos simplesmente por criar grandes muros.

Em vez de muros, criemos portas e abramos os muros à inteligência.'

José Vieira


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