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  • Maria do Mar Vieira

Aniversários



Mandaram-me esta foto no mês passado e resume bem a minha infância, principalmente as festas de aniversário. Não é difícil de perceber que eu sou a menina que está sozinha, afastada de todos os outros. Nesta altura não sabia que era autista e só passado dez anos é que tive o diagnóstico. Mas os sinais estavam lá todos.

Tinha muita dificuldade em me integrar nas brincadeiras dos meus colegas e não sabia como interagir com eles. Não gostava de aniversários. Não sabia bem o que havia de fazer e como brincar, não gostava quando cantavam os parabéns, não gostava quando gritavam. Normalmente ficava mais afastada apenas a ver os meus colegas a brincar. Sempre que a campainha tocava, ia sempre a correr para a porta para ver se era a minha mãe a ir-me buscar. Mas nunca era. A maior alegria do dia era quando a via e podia ir finalmente para casa.

Nunca me passou pela cabeça dizer aos meus pais que não queria ir. Achava que era obrigatório, que nem havia a opção de não ir. E a ansiedade só de pensar que depois no dia seguinte os meus colegas me perguntavam porque não tinha ido ao seu aniversário... só havia mesmo a alternativa de ir.

A minha família conta que nos meus aniversários eu chorava sempre quando me cantavam os parabéns e me escondia sempre algures a tapar os ouvidos. Eles pensavam que era da emoção de fazer anos. Mas a realidade era que não suportava o barulho. Mas eu era uma criança e não tinha a consciência disso. Apenas passava por uma criança mimada.

Hoje é tudo bem claro. Faz tudo sentido. Mas na altura não. Nem se sabia bem o que era o autismo.

Como já referi anteriormente, o Autismo está nos pormenores e devemos estar atentos a todos eles. Não devemos descartar certos comportamentos, achando que é engraçado ou que somos crianças mimadas ou tímidas. O Autismo está lá, só temos de o ver.

Sei que se tivesse o diagnóstico em criança, muito do sofrimento poderia ter sido evitado. Mas agradeço por ter uma família que nunca desistiu de mim e sempre lutou até eu estar bem e estável.


Mostrei esta fotografia à minha avó. A resposta dela emocionou-me: ‘Não tenho palavras, só tenho lágrimas. Desculpa por tudo o que não quisemos ver.… por tudo o que não fizemos.’ Ter esta resposta da minha avó foi como ter ganho o euromilhões. Sempre tive alguma dificuldade em interagir com ela. Sempre achei que ela não me conhecia e entendia verdadeiramente. Mas depois desta resposta e depois de a ver chorar no meu evento soube que tinha conseguido. Que tinha conseguido chegar ao coração dela e nada me trouxe mais felicidade do que isso. Pela primeira vez vi a minha avó a chorar, a ser emotiva e sensível. Soube que agora ela me compreende e aceita tal como sou. Foi uma das coisas mais importantes nos últimos tempos.



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