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  • Maria do Mar Vieira

Chuva e sobrecargas

A semana que passou foi um pouco difícil para mim. Estive mais sensível e mais desregulada. Tudo me irritava e tudo me dava vontade de chorar. Não percebia o porquê. Tudo estava a correr aparentemente bem e não havia nenhum motivo para me sentir assim. Até que numa aula de dança não aguentei mais. O toque tornou-se demasiado desconfortável. Mas porque não estava a tolerar esse estímulo se já tinha feito aqueles exercícios noutros dias e não houve problema nenhum?

Passei o resto do dia a refletir e a recuar no tempo e a ver o que tinha feito e o que tinha acontecido a cada minuto naquele dia. E cheguei a uma conclusão. Algo tão simples e que fez todo o sentido naquele momento. Como nunca tinha reparado nisso? Fez-se luz na minha cabeça.



Foto: Rui Santos

O som da chuva é um estímulo, e a própria chuva também é. Mesmo com chapéu de chuva, caem pingas da chuva sobre nós. Milhares de pingas caem em cima de nós a cada segundo. Cada pinga que nos toca é um estímulo. Isto significa que recebemos milhares de estímulos por segundo. Fora os restantes estímulos que recebemos diariamente.

E a sensação da roupa molhada e fria que me deixa tão desconfortável e desregulada.

É lógico que ao chegar à aula, já recebi muitos estímulos e demasiada informação, e por isso o meu cérebro processa tudo o que recebe mais lentamente, incluindo o toque que já nem consegue processar.

Mal chego a casa tenho de vestir outra roupa muito mais confortável e larga, como o pijama por exemplo. A minha pele já não aguenta roupas justas, ásperas e frias.

Sinto-me completamente exausta. Sinto que cheguei ao meu limite. Que tudo é muito mais difícil. Sinto-me muito mais sobrecarregada e por isso fico mais sensível a tudo o que me rodeia. Tenho mais dificuldade a perceber o que me dizem e fico frustrada por não estar a conseguir acompanhar, os sons tornam-se mais altos, o toque torna-se doloroso. E as lágrimas escorrem-me pela cara, até que adormeço de tão cansada que estou.

E tudo se volta a repetir no dia a seguir. Sinto que a noite não é suficiente para me regular e que estou ainda mais cansada.


Sempre me senti ansiosa em relação à chuva. Entrava em pânico sempre que tinha de sair de casa e estava a chover. Por vezes nem conseguia sair. Sempre pensei que era por causa da sensação da roupa molhada no meu corpo. Mas afinal é muito mais que isso.

Ser autista é estar constantemente a conhecermo-nos e a tentar perceber o motivo das nossas sobrecargas e dos nossos comportamentos. É um caminho de auto descoberta e posso dizer que a felicidade que sinto sempre que descubro algo novo em mim é única. Agora tenho material para trabalhar as minhas dificuldades e sobrecargas. Posso arranjar estratégias para superar estas situações e evitar as sobrecargas.

Agora estou pronta para mais uma semana de chuva. Botas, Casaco e calças impermeáveis. Chapéu de chuva. Fones de cancelamento de ruído. Muitas horas de descanso. Sair de casa só quando é mesmo necessário. Roupa extremamente confortável. Dias menos preenchidos. Muitas estereotipias. E o meu refúgio na dança para me acalmar e deitar tudo o que sinto para fora.

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