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  • Maria do Mar Vieira

Contacto Visual


Foto de Nelson Gomes

Como muitos sabem, o contacto visual é uma das grandes dificuldades existentes em grande parte dos Autistas. Eu sempre pensei que conseguia estabelecer contacto visual. Só passado um tempo depois de ter sido diagnosticada, é que percebi que afinal não o fazia. O mascaramento já era algo tão enraizado em mim, que eu própria não me apercebia que o fazia. Ao longo da nossa vida vamos arranjando estratégias para disfarçar as nossas diferenças e dificuldades. Percebi que não olho nos olhos das pessoas. Olho em volta deles, para a testa, para o meio dos olhos, para as sobrancelhas, para algum acessório que tenham no cabelo como ganchos ou fitas, colares ou brincos, até que fixo algo que me chame a atenção. Por causa do brilho ou da forma que tem. Fico a olhar fixamente para aquilo e a desenhar a sua forma no céu da minha boca. Sei que não posso estar fixamente a olhar, mas não sei durante quanto tempo posso estar a olhar. Vou desviando o olhar. Olho em volta das pessoas e quando dou conta estou a contar o número de azulejos que a parede tem e a organizá-los em padrões específicos. Ou a dividir as frases e palavras que vejo em grupos de dois ou três. Ou a desenhar algo que ache engraçado no céu da minha boca. Faço isto tudo sem estar plenamente consciente de o estar a fazer. Mas por muito estranho que possam achar, eu estou a ouvir-vos. Estou muito atenta ao que me estão a dizer. Esta é a minha maneira de vos ouvir. Se tiver de olhar nos vossos olhos, não vou conseguir captar nada do que me estão a dizer.

‘O que sentes quando olhas nos olhos das pessoas?’, às vezes me perguntam. Muito desconforto. É como se os olhos das outras pessoas queimassem os meus. Como quando olhamos para um foco de luz muito intenso e temos de desviar o olhar.

Só dei conta que não fazia contacto visual quando percebi que não sabia de que cor eram os olhos das pessoas à minha volta. Se me perguntarem de que cor são os olhos dos meus tios, avós ou amigos, eu não sei. De algumas pessoas como os meus pais sei, porque cresci a ouvir que eles tinham os olhos verdes ou castanhos.

Ultimamente tem-me acontecido ficar admirada por uma pessoa ter olhos verdes ou azuis. ‘Só agora é que reparaste? Já me conheces há tanto tempo...’ - Dizem-me. Pois, mas nunca olhei para os teus olhos. Fico contente quando isto acontece porque é sinal que consegui olhar nos olhos. São estes pequenos acontecimentos que me deixam feliz, pois fiz algo que antes não era capaz, sem ter dado conta.



Aqui vos deixo um vídeo que eu fiz sobre a interação social, onde se vê também como é o meu contacto visual durante uma conversa:

https://www.youtube.com/watch?v=gYe56HB4iAY


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