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  • Maria do Mar Vieira

Meltdown


Estou num café, a música está a tocar, as pessoas estão todas a falar, a máquina do café faz barulho, as chávenas batem todas umas nas outras a tilintar, um grupo de jovens passa lá fora a falar muito alto, há pessoas a entrar e a sair, a porta da casa de banho a bater, um alarme de um carro a tocar lá fora, as pessoas da minha mesa a falar diferentes temas entre elas, não consigo prestar atenção a tudo o que dizem, estou perdida e confusa, elas falam rapidamente e cada uma sabe a sua vez de falar, tenho algo a dizer mas não consigo entrar na conversa, começo a ficar ansiosa, entretanto já mudaram de assunto e não consegui dizer o que queria, um riso muito alto da mesa ao lado entra pelos meus ouvidos, uma mota passa lá fora. Estou completamente confusa, os sons aumentam, já não os consigo distinguir, a minha voz não sai, não consigo falar. Alguém me faz uma pergunta, não consigo responder. Ela insiste comigo, fico ainda mais ansiosa e frustrada por não conseguir falar, tento controlar-me para as lágrimas não me escorrerem pela cara. Toda a gente olha para mim à espera da minha resposta. O meu cérebro não está a conseguir gerir toda a informação que recebe. Não sei que fazer, sinto-me totalmente perdida. Sinto uma 'explosão dentro de mim' e perco o controlo. Começo a chorar sem parar, a gritar e a destruir tudo à minha volta. As pessoas tentam acalmar-me mas o toque delas no meu corpo torna-se insuportável e empurro-as. Acabo por sair a correr de onde estou.



Meltdowns são momentos em que o autista se sente demasiado sobrecarregado. O cérebro não consegue processar todos os estímulos, o stress e a ansiedade aumentam, os sons ficam mais altos, não conseguimos compreender o que se passa à nossa volta, não sabemos como agir ou o que dizer. Ficamos confusos e desorientados, sentimos uma 'explosão' dentro da nossa cabeça e perdemos o controlo sobre nós próprios. Queremos pedir ajuda, não sabemos como e quando damos conta estamos a gritar, chorar e muitas fazes auto-agredimo-nos e agredimos os outros.

Muitas vezes é confundido com as birras, mas ao contrário destas que são pensadas e feitas com um próposito e um objetivo em vista, os meltdowns são reações neurológicas em que se perde o controlo e sem se conseguir escolher o momento para o fazer.

Após o meltdown sentimo-nos extremamente cansados, por isso é bom deixarem-nos descansar e não falarem muito connosco. Um abraço por vezes é bastante reconfortante, mas perguntem sempre antes se o podem dar pois ainda podemos estar sensíveis e o toque pode ser algo desagradável. A compreensão é algo muito importante pois após o meltdown sentimo-nos envergonhados pelo que fizemos.



Mostro-vos um vídeo onde podem ver o que acontece connosco. Neste caso em concreto não houve um meltdown porque houve alguém a intervir com antecedência, mas se não houvesse a rapariga iria acabar por ter um:

https://www.youtube.com/watch?v=KmDGvquzn2k&feature=emb_logo

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