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  • Maria do Mar Vieira

O dia seguinte


Há dias bons. Difíceis mas bons. Dias diferentes do normal, que faço coisas que não fazem parte da minha rotina, coisas novas e desconhecidas para mim. Coisas que me metem medo e me deixam ansiosa. Mas faço-as! Porque sei que se não as fizer e não lutar por elas, nunca irei fazer o que realmente gosto.


Foto de João Queiroz

Acordo, faço a minha rotina habitual de manhã e apanho um comboio rumo ao desconhecido. Marquei algumas sessões fotográficas naquele fim de semana, fora da minha cidade.

Ao sair do comboio, sou invadida por milhares de vozes diferentes e muitos sons, todos diferentes uns dos outros. Concentro-me por procurar o fotógrafo que está algures ali à minha espera. Inúmeros pensamentos estão na minha mente. Vai começar a grande aventura. Estar com várias pessoas, desconhecidas na maior parte, andar de transportes públicos, diferentes dos da minha cidade, a grande azafama de comprar bilhetes em máquinas estranhas e confusas. Andar meia perdida no meio de ruas desconhecidas, rodeada de pessoas e barulhos que vão aumentando a cada passo que dou. Entro num centro comercial e tento encontrar um sitio calmo para almoçar mas no meio daquela confusão sonora entro na casa de banho mais próxima. Respiro fundo várias vezes, as lágrimas vêm-me aos olhos e só quero regressar a casa. Tenho a cabeça pesada, uma sobrecarga enorme de sentidos, sinto-me cansada. Mas depois penso: 'Está tudo a correr bem, já fiz uma sessão, foi muito tranquila e não me senti mal. Eu vou conseguir continuar a enfrentar todos os desafios que se cruzarem comigo. Se eu consegui chegar até meio do dia, vou conseguir chegar até ao fim e vou chegar a casa orgulhosa de mim'. Depois de muito andar de um lado para o outro dentro da cabine da casa de banho e de muito abanar as minhas mãos, páro, levanto a cabeça, respiro fundo. 'Eu vou conseguir'. E saio em busca de uma mesa para almoçar, enfrentando todos os olhares, ruídos e ansiedades.

Sempre tive a sorte de conhecer fotógrafos incríveis e que me deixam bastante confortável e à vontade. Sinto-me segura embora um pouco ansiosa porque por vezes não sei o que dizer ou como é que é suposto agir. Será que estou a corresponder às expectativas do fotografo? Será que estou a fazer as coisas bem? Será que disse algo que não devia ter dito? Ou será que devia dizer alguma coisa em vez de estar aqui calada? São estes alguns dos meus pensamentos mas logo desaparecem quando me concentro e foco na câmara fotográfica. Dou o melhor de mim, para transmitir o sentimento da melhor maneira possível.

De regresso a casa, no comboio, os meus olhos só se querem fechar do cansaço sentido.

No dia seguinte não me consigo levantar. Foram tantos os desafios e os obstáculos no dia anterior, esforcei-me tanto para me controlar e tentar agir o mais normal possível. Esforcei-me para não gritar, para não fazer coisas consideradas estranhas para as outras pessoas, tentei comportar-me como é suposto eu me comportar. Não entrar em pânico e não fazer nenhuma estereotipia quando os sons entram da minha cabeça e aumentam a uma velocidade enorme. Tentei manter a calma e não destruir nada nem gritar quando algo estava fora do meu controlo.

Sinto-me exausta, não tenho forças nem coragem para enfrentar o mundo naquele dia. Qualquer som, mesmo que seja apenas o som do relógio ou uma voz lá fora me incomoda. Como hei-de sair de casa se até a minha própria respiração me atormenta? Não consigo, hoje não consigo sair de casa. Mas sinto-me orgulhosa e extremamente feliz por ontem ter conseguido fazer tudo o que fiz e ter feito aquilo que gosto. Mas principalmente por ter conseguido ultrapassar tudo completamente sozinha.

Hoje vou ficar em casa, a descansar do mundo, mas amanhã vou sair e enfrentar a vida e não vai haver nada que me fará desistir.



Fotografia: João Queiroz (@joaoqphotos)

https://joaoqueirozfotografia.alboompro.com/

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