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  • Maria do Mar Vieira

O Fim de uma Etapa


Foto de Nelson Gomes

Tinha medo. Todo o meu corpo vibrava na frequência da ansiedade. Ia pela primeira vez, passados anos e depois do meu diagnóstico, voltar a estudar. Só tinha memórias de sobrecargas, de bullying, de ansiedades, de choros, tudo coisas negativas pelo que tinha passado anteriormente na escola. Mas ali estava eu. Pronta para abraçar um novo começo. Um começo ao lado de pessoas como eu. Um começo de respeito, aceitação, compreensão. Não sabia o que essas palavras significavam na pele e pela primeira vez senti-as, soube o que isso era.

As primeiras semanas foram difíceis. Sempre que ouvia o meu nome, o meu coração acelerava, sempre que me faziam alguma pergunta ou pediam para eu falar, eu entrava em pânico, começava a chorar e só queria fugir. Mas com o tempo fui conhecendo os meus colegas, os meus formadores e fui ganhando confiança neles. Fui vendo que mesmo estando anos sem estudar, as minhas capacidades de aprendizagem não se tinham perdido e isso deu-me alguma autoestima.

Houve dias complicados, houve crises, houve medos, houve sobrecargas. Houve dias em que quis desistir e nunca mais voltar. Mas no dia seguinte estava lá de novo. Tinha medo que me perguntassem porque tinha saído a correr no dia anterior ou porque tinha faltado, tinha medo do julgamento e da repreensão. Mas isso nunca aconteceu. Recebiam-me sempre de braços abertos, felizes por me ver. Senti-me apoiada e compreendida. Senti que valorizavam o meu esforço e o meu processo. Foram dois anos em que evolui bastante. Acabei o curso a por o dedo no ar para responder, a controlar um pouco mais as minhas crises, a não fugir sempre que entrava em pânico, a saber que eu era capaz, mas principalmente a conhecer-me a mim e aos outros como eu, a lidar com as minhas dificuldades e a acreditar nas minhas capacidades.

Mas a grande evolução deu-se quando fui para estágio. Sempre pensei que nunca iria conseguir trabalhar, integrar-me no mercado de trabalho, mas a verdade é que consegui e a felicidade e orgulho que sinto por isso é tão grande que nem dá para expressar em palavras.

Fui recebida entre sorrisos e palavras carinhosas. Desde o primeiro dia que soube que ia correr tudo bem. Pela primeira vez senti-me igual a toda a gente. Igual no sentido de todos somos diferentes e todos temos as nossas características e dificuldades. Pela primeira vez soube o que era inclusão. Uma palavra que ouvia toda a gente falar, mas não sabia bem o que era. Acho que só se percebe o verdadeiro significado desta palavra quando a sentimos na pele. A música estava alta, baixavam a música; sempre que faziam mais barulho pediam-me desculpa ou avisavam-me que iam fazer mais barulho para eu estar preparada; sempre que me viam mais sobrecarregada levavam-me para dentro para eu recuperar e descansar; estavam sempre atentos para ver se eu estava bem, ajudavam-me sempre que eu precisava. Inclusão é isto. Proporcionar o melhor ambiente para nos sentirmos completamente confortáveis. Não nos excluir de nenhuma tarefa, mas sim arranjar a melhor alternativa para conseguirmos realizar essa tarefa com sucesso.

Houve dias complicados? Houve. Houve sobrecargas? Houve. Houve dias que quis desistir e nunca mais voltar? Houve. Mas sabia que tinha uma equipa que me adorava e me ajudava sempre. Não tinha medo de ali estar. Sentia-me segura. Então abraçava todos os medos e inseguranças e voltava sempre.

Dei sempre o melhor de mim em tudo. Penso que um dos meus maiores problemas seja ser muito perfeccionista e não querer desiludir ninguém. Sempre que algo corre menos bem, eu entro sempre em pânico e fico muito frustrada comigo própria, ficando dias a pensar sem parar naquilo que fiz. Mas mostraram-me que não faz mal errar de vez em quando. Errar é humano e os erros servem para aprendermos com eles.

Acabei o estágio com uma nota bastante alta. Claro que isto só aconteceu porque eu não desisti e lutei sempre por mim. Mas também, porque tive as melhores pessoas que poderia ter tido ao meu lado e que contribuíram para que tudo fosse possível.

Agradeço a todos por me terem proporcionado a melhor experiência que poderia ter tido com o contacto com o mercado de trabalho. Obrigada por terem sempre acreditado em mim e nunca terem desistido de mim. Nunca irei esquecer tudo o que fizeram por mim. Irão ficar para sempre dentro do meu coração.

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