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  • Maria do Mar Vieira

Testemunho 3

Hoje trago-vos mais um testemunho, desta vez da minha avó.

Agradeço-lhe por toda a ajuda que me tem dado ao longo deste grande percurso, principalmente por nunca ter desistido de mim.



'Quando se descobre que se tem uma criança/adolescente autista em casa…

Lembro-me, Maria, quando uma vez, durante umas férias, terias talvez quinze anos, contaste uma anedota durante o almoço, numa mesa repleta de família. A anedota era engraçada e todos rimos. No dia seguinte, na mesma mesa e com as mesmas pessoas, contaste a mesma anedota. Já ninguém riu e pensámos que te tinhas esquecido que já a tinhas contado. Ficaste dececionada e perguntaste: Então, não se riem? Alguém respondeu: Mas já contaste essa anedota ontem! Perante o espanto de todos disseste: Por isso mesmo, ontem todos se riram, porque não se riem hoje? Estranhámos, mas não nos alarmámos. Não havia razão para alarme ou preocupação. Eras uma excelente aluna. Não havia, nunca, a necessidade de te lembrar os teus deveres e obrigações. Eras a nossa estrela: perfeita em tudo. Não sabíamos, nessa altura, que tínhamos uma adolescente autista em casa. Autista funcional (Asperger), mas autista. Quem primeiro o soube foram os teus colegas, surpreendidos pela originalidade de alguns comportamentos. E fizeram-te sentir que eras diferente. Guardaste essa angústia só para ti, não compreendendo como te viam de forma tão diferente a tua família e os teus colegas. Sou tua avó, sou professora, competia-me ter percebido! Como eu te poderia ter ajudado se tivesse visto para além daquilo que queria ver! Aqui deixo um alerta para pais e professores: estejam atentos aos sinais. Uma intervenção precoce poderá permitir não só ultrapassar dificuldades como promover potencialidades que, não raras vezes, se revelam surpreendentes. É urgente sensibilizar estas crianças/adolescentes/jovens para a sua diferença, treinando competências de comunicação e resiliência, aumentando a sua autoestima, dando relevo às suas habilidades excecionais. É urgente divulgar as dificuldades inerentes a este sindroma, mas também valorizar a perseverança, memória excecional, rigor e sinceridade. Continuas a ser a nossa estrela, Maria, o nosso orgulho. Agora, mais do que nunca. Conseguiste, com um esforço tremendo e uma tremenda coragem, mostrar como se transforma um transtorno numa mais valia.'

Leonor Castro Nunes

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